O jornalista Naylor George, morto nesta quarta-feira, 18, aos 63 anos, por complicações do diabetes, era um poeta errante, como ele mesmo dizia. Um vez, num almoço no mercado velho, me disse: “Evandro, eu amo os bêbados e o mercado. Aqui acontece o Estado”. Nascido no seringal São Francisco do Iracema, as margens do rio Acre, entre Xapuri e Rio Branco, ele chegou garoto no segundo distrito da capital. Estudou e tornou-se um intelectual na essência da palavra. Hoje está sendo velado na capela do cemitério Morada da Paz, onde será enterrado às 17hs.

CONHEÇA MAIS A HISTORIA DO POETA NAYLOR

Naylor George, historiador, escritor e jornalista é um intelectual que cultua o gosto pela inovação, polêmica e busca de novas formas para expressar, com sensibilidade, senso critico, consciência política e existencial seus pensamentos sobre o mundo social, pessoal e literário.
Conheço Naylor desde os idos de 1984 e, apesar de larga experiência em magistério superior, naquela oportunidade, a relação estabeleci da na docência, pesquisa e participação em eventos culturais foi marcada por desafios de lidar com alguém .
que a alma e a mente estão permanentemente em ebulição, questionando-se e questionando o entorno – pessoas, idéias, comportamentos, verdades e certezas.
Em suas obras, ao longo dos últimos vinte anos, texto e contextos
se unem formando uma totalidade, quando se observa que a criação deste é marcada pela experiência social de ter nascido no bairro Quinze, espaço de Rio Branco, que desde o gênese da cidade é caracterizado como o lócus de escritores, poetas, bares, casas noturnas, de espetáculos. ..Transgredir na acepção profunda e múltipla é a palavra que personifica esse filho das barrancas do rio Acre.
O texto, de sua autoria, “ As outras partes do nada” se constitui uma aquarela de fragmentos da realidade recortados e justapostos dialeticamente: o nada é tudo…
A partir desse “olhar” se compreende que ninguém precisa ser nada para ser alguma coisa.
Expressão conceitual, filosófica e política que permite refletir o tornar-se celebridade.
Neste sentido, a frase profética de Andy Warhol de que “todo mundo terá seus quinze minutos de glória até o fim do século”, referindo-se ao século XX e estamos no XXI, demonstra que a exposição pública por algum meio ou forma e em quaisquer aspectos são os tantos minutos de glória que todos podem usufruir num mundo contagiado por ecléticos e universais meios de divulgação.
E, as partes desse nada que é tudo -terra, plantas, rios, bichos, pessoas, idéias, valores, comportamentos… é como a vida diversa, dinâmica, inesperada, inquietante, singular e plural, regional e universal…
Na condição de menino do Quinze que aprendeu a voar nas asas da imaginação e a “pensar com o dedo”, desenhando escritos, Naylor George vem, sem prender-se a estilos e formas literárias, registrando e transcendendo a material idade da vida como estratégia de encontro ou reencontro consigo mesmo no universo das outras partes do nada.