DA CONTILNET

Era feriado de aniversário de São Paulo, e ele resolveu assistir ao concerto de João Carlos Martins no histórico teatro, eleito o mais belo do mundo pelo jornal britânico The Guardian. Ao ver Zé Celso por lá, o jovem não teve dúvidas: ao fim do espetáculo, foi cumprimentá-lo.

De cara, o diretor percebeu o talento daquele menino e passaram a trocar e-mails. Primeiro, veio o convite para ser assistente de direção em O Rei da Vela no Teatro Sérgio Cardoso. Até que em 1º de junho de 2018, Nolram tomou a decisão de mudar-se para São Paulo após Zé Celso convocá-lo para a remontagem do espetáculo Roda Viva, de Chico Buarque, 50 anos depois da estreia histórica em 1968.

Apesar de só ter 25 anos, Nolram tem trajetória no teatro acreano, onde fundou em 2016 o Teatro Candeeiro, grupo que ainda tem José Hysnaip, Jaqueline Chagas e Lonara Teixeira, além de Nando Veras e Micael Côrtes, que dirigiu as primeiras obras da trupe teatral.

Mesmo atualmente radicado na capital paulista, faz questão de acompanhar as atividades do grupo, “que ganhou um edital estadual lá no Acre e vai estrear em março a dramaturgia Depois de Dora”, escrita por ele.

Mas, voltemos ao Oficina. No mais longevo grupo teatral do Brasil, com 61 anos de atividades sempre sob liderança de José Celso Martinez Corrêa, Nolram foi escalado para trabalhar junto ao diretor e sua fiel conselheira, Catherine Hirsch, na atualização do texto de Chico Buarque, fazendo-o dialogar com o Brasil de hoje.

Com o tempo, Zé Celso achou que Nolram também deveria estar em cena, e o convocou também para o famoso coro do Oficina — que foi criado justamente na primeira montagem de Roda Viva.

“Foi intensa, mas foi bonita a minha chegada ao Oficina. O Zé me apresentou àquele universo todo com muito cuidado. Desde a primeira conversa. Ele chegou a assistir comigo um documentário sobre ele. Cheguei já em meio daquele movimento todo o Parque do Bixiga. Cheguei muito dentro disso. E ele foi me mostrando todo o caminho”, conta.

Nolram Rocha se orgulha de ser o único acreano no elenco do Teat(r)o Oficina e também na SP Escola de Teatro, onde estuda direção desde o segundo semestre de 2019. E diz que quer se aprofundar cada vez mais neste sentido.
Nolram confessa que se emocionou na última quarta (18), quando subiu ao palco do Theatro Municipal de São Paulo pela primeira vez para cantar Roda Viva, na primeira edição do Prêmio Arcanjo de Cultura, na qual o Oficina sagrou-se vencedor em Teatro.

“A última pessoa que eu tinha visto lá naquele palco histórico da Semana de Arte Moderna de 1922 foi a Fernanda Montenegro, ela cantando a musica da Laudelina, da peça O Mambembe, do Arthur Azevedo, que eu tinha feito no Acre. E estava com o Zé Celso ali do meu lado. E pouco tempo depois, eu subo naquele mesmo palco para cantar Roda Viva. Foi gigantesco”, define.

“Depois do Prêmio Arcanjo, eu conversei com o Zé. E ele estava encantado com a capacidade da premiação em ter englobado essa diversidade com tanta qualidade”, conta. “Vi uma ideia da antropofagia se concretizando ali no Municipal no Prêmio Arcanjo, dialogando com o hoje. E o Zé trabalha muito com o hoje”, diz.

Nolram fica feliz com a abertura a todas as diversidades que existe dentro do Teat(r)o Oficina. “O Zé quer mesmo incorporar cada vez mais as caravanas de todas as culturas, gêneros, etnias, antropofagiar todo mundo naquela pista”, explica.

E destaca a diversidade presente no elenco do Oficina, repleto de representatividade.

Após temporada carioca de sucesso na Cidade das Artes, diz que está empolgado com a derradeira temporada de verão de Roda Viva, que começa nesta segunda (23), com sessão de reestreia marcada para 14h30, e que vai até 26 de janeiro, incluindo sessões de Festas.

“Achei lindo, fazer o espetáculo no Natal e no Ano-Novo. Ano passado já foi assim, na noite de Réveillon estava de mãos dadas com a Letícia Sabatella. Ela me desejou coisas lindas e eu recebi. Estou muito ansioso para viver esse rito novamente”, avisa o ator formado em Gestão de Pessoas e que largou o curso de Direito na Universidade Federal do Acre para se dedicar à carreira artística.

Mas, de onde vem esse nome tão diferente? O primogênito da acreana Nordivania Rocha e do carioca Marlon da Costa revela: “Meu nome é Marlon, o nome do meu pai, ao contrário. Os dois escolheram juntos. Tinha uma tradição de começar com as iniciais nas duas famílias, a família por parte de pai com M e mãe com N, aí eles inverteram o nome do meu pai e todo mundo ficou contente”, diverte-se.

Vivendo a frenética vida paulistana, ele não abre mão do contato com sua terra. “Estou em São Paulo, mas no Acre também, porque estou em contato diário com o Teatro Candeeiro. Seguimos trabalhando juntos”.

O conterrâneo de João Donato — de quem sonha em breve ver um show — conta que as pessoas em São Paulo costumam lhe dizer que ele é o primeiro acreano que elas conhecem. “Sinto uma responsabilidade enorme de carregar um Estado inteiro comigo, o meu Acre”, conclui, orgulhoso.

Roda Viva
De Chico Buarque sob direção de Zé Celso com Teat(r)o Oficina
Onde: Teatro Oficina (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 11 3106-2818)
Quando: De 23/12/2019 a 26/01/2020
Dezembro 2019
SEG 23 DEZ – Dia de Luís – 14h30
QUA 25 DEZ – Natal – 20h
27, 28, 29 DEZ – SEX e SÁB 20h, DOM 19h
31 DEZ – Réveillon – 20h
Janeiro 2020
03 a 26 JAN – SEX e SÁB 20h, DOM 19h
Quanto: R$ 60 e R$ 30 (compre seu ingresso já)

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